Se eu fosse um armário, queria ser igual àqueles de laboratório cheio de gavetas de tamanhos variados e ainda com espaço para caixinhas quadradas, ovais e redondas. Tudo pra guardar as minhas memórias. Gavetas que vão se moldando como meia-calça com lycra. Algumas aumentam de tamanho para não transbordarem com os problemas emocionais. Nos momentos de desafios, por exemplo, a gaveta das incertezas e dos medos se expandem. Em outras situações, a gaveta da alegria e agradecimentos aumentam em duas, três, quatro vezes.
Meu armário seria também recheado de gavetas para aromas, como da colônia “Leite de Rosas” que minha mãe usava, da loção de barbear Bozzano do meu pai, do biscoito ao leite da extinta fábrica Marilú, do sabonete Granado da minha neta, da alvorada do dia de São Jorge no subúrbio onde morávamos. Ou para imagens do pôr do sol no rio Tejo, do ir-e-vir dos barcos no Sena, da luz de Búzios, do cinza do Mar do Norte, da beleza dos espelhos da Confeitaria Colombo.
Há também a gaveta da saudade. Saudade dos meus pais que já se foram, da minha família – um oceano nos separa.
Tem gente que diz que saudade passa. Não, não. Saudade chega e fica. Nunca mais vai embora. Cola como chiclete nos cabelos. Posso até dizer que tenho inveja de quem diz: “Sinto saudade não! Tudo passa, saudade também”. Sou fraca pra esse tipo de atitude.
Meu armário é repleto também de lembrança, como da professora que me ensinou a escrever, da primeira vez que o meu instrutor de natação me deu parabéns depois da travessia da piscina semiolímpica, da recepção no primeiro dia de aula na PUC-Rio, do gol do Flamengo na final do campeonato brasileiro de 2009 no Maracanã, de todos que me amaram.
As lembranças dos que me fizeram sofrer vão sendo amassadinhas lá bem no fundo de uma grande gaveta na parte inferior dele. Essas sim vão sumindo com o passar dos anos.