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O perfume do sonho

Sonhos são pedaços de mim que ficam escondidos. Até que um dia irrompem numa noite qualquer, sem aviso prévio. Sabe-se lá quanto tempo levam para tomar coragem e se mostrar bem diante dos meus olhos adormecidos.

É verdade que nem sempre lembro deles no dia seguinte. Às vezes, não me importo com o esquecimento. Em outras, no entanto, quero entender o que foi que sonhei. Não gosto dessa sensação inacabada de saber que tive um sonho, ruim ou bom, e não conseguir lembrar. Passo boa parte do dia me angustiando: o que minha mente processou em imagens, sons, sabores, cheiros?

Foi com o perfume de um campo de lavanda que sonhei algumas noites, sem nunca ter estado em um deles. Conhecia bem a planta: das águas perfumadas, dos molhinhos roxos em lojas de produtos naturais e, principalmente, de uma feira de rua que visitei há anos em Split, na Croácia. As ruas estavam banhadas pela fragrância. Os campos ficam na ilha de Hvar, a uma hora de ferry boat da cidade, no mar Adriático. No Brasil, há plantações no sudeste, mas nunca tive a chance de visitar.

Pesquisando aqui e acolá, descobri que, pertinho de onde estou, no sudoeste alemão, há campos de lavanda abertos à visitação em Grünstadt-Asselheim. Levei um pouco mais de trinta minutos até lá.

De longe, visualizei o que tinha aparecido no meu sonho: longas extensões nas nuances do azul-violeta balançando com a brisa de uma tarde de verão. Um espetáculo até um tanto quanto monótono, mas suave: um mar de arbustos baixos com o bzzzz das abelhas e o voo tranquilo das borboletas saltando de flor em flor.

O perfume do sonho estava no ar. Mais um realizado.

Nota: A floração, como na francesa Provence, vai de meados de junho até o fim de julho.

Foto: acervo pessoal