DIA 1
Pensei em enfiar a cabeça dentro da geladeira. Desisti. Ela estava muito cheia com as compras do supermercado. Bebi tanta água como se todas as fontes do mundo fossem acabar de uma só vez. Me senti em uma cena de Mad Max. Tudo por causa dessas temperaturas em torno dos 40 graus. Estou a caminho da loucura. Não sei o que fazer.
DIA 2
Hoje, acordei meio tonta. Já levei um papo sério com esses insuportáveis calores mais de uma vez. Sugeri que me deixassem em paz. Eles insistem em não me abandonar. Há anos são companheiros constantes, desde que passei por uma cirurgia. Quando acordei da anestesia: “Ah, querida. Tirei tudo. Esse tumor não passou no vestibular. Tentou. Não conseguiu.” E eu que imaginava que seria retirado somente o ovário direito. Papo do cirurgião-chefe pra me dar a notícia de que, aos 42 anos, eu estava na menopausa. O tipo do tal tumor impediu que eu fizesse reposição hormonal. Hoje sei que, à época, estudos associavam o uso dessa terapia hormonal ao surgimento de tumores nas mamas. Hoje, sei que foi um equívoco enorme da pesquisa.
DIA 3
Quase sempre acontece a mesma coisa. Nesta manhã, não foi diferente. Tem horas que a confusão mental é grande. Não sei se fico no mesmo lugar, se vou pra debaixo do chuveiro, se engulo cubos de gelo, se xingo ou se grito. Suo como se estivesse na academia; tenho dores de cabeça e pressão baixa. Esperando o desconforto acabar, pensei na minha mãe. Lembro do suor sem motivo, da irritabilidade, do choro a troco de nada, da reclamação da secura da pele, da perda do brilho dos cabelos e, claro, do calor. Lembrei do meu esforço pra, de alguma forma, aliviar a tristeza que se abatia sobre ela. Não entendia muito, mas queria ajudar.
DIA 4
Decidi ir ao supermercado somente lá pelas sete ou oito da noite. Achei melhor me preservar. Quando cheguei ao caixa, ouvi a voz da moça ao longe: “Senhora, vai pagar como?” Levei uns bons segundos pra responder. Uma onda interna misturada ao bafo quente da loja me tirou do prumo. Visão embaçada, quase desmaiei. Consegui me recuperar. Voltei em segurança pra casa depois de muita concentração e da solidariedade da moça, que pareceu compreender o que estava acontecendo. Claro, paguei a conta. Uma vergonha já bastava.
DIA 5
No fim de tarde, penso: sou carioca. No entanto, a cada ano me sinto menos resistente ao verão. Acho que são os anos passando velozmente pela minha vida. Outros diriam que é efeito das mudanças climáticas. São dias seguidos sem aquelas chuvinhas de fim de tarde que desaquecem a terra, os canteiros, as folhas das árvores, o corpo. Lembro dos banhos de chuva quando criança. Adorava. “Vai ficar resfriada, menina”. Nem ligava.
DIA 6
Sem comentários.
DIA 7
Apesar de tudo, não curto ficar reclamando. Dá vontade, mas não me faz bem. Não aguento mais ficar falando, falando, falando. Menopausa, verão e calor não combinam. Vão continuar por aí entra ano, sai ano. Só espero que não piore muito e que eu consiga melhorar minhas estratégias, como usar roupas de algodão e procurar locais com ar refrigerado. Minha mente superaquecida não me permite escrever mais. Vou tomar o terceiro banho de água fria.