Oito horas da manhã de um domingo. Outono nublado. A máquina de lavar sacolejava na fase de centrifugação a roupa de cama. As toalhas brancas aguardavam a sua vez para voltarem limpas para o armário. A água da torneira do tanque escorria com força – não deve ter muita gente no prédio lavando roupa nesse horário. Debaixo dela uma camisa de seda marfim com botões idem. Tudo o que eu queria era eliminar uma mancha amarelada no ombro e em parte da gola. Ela já estava mergulhada em um produto tira-manchas. Dormiu de sábado pra domingo no mesmo lugar. Esfreguei mais de uma vez; coloquei mais tira-manchas; pendurei em um cabide transparente de plástico; esfreguei de novo. A mancha estava lá. Coloquei os óculos pra checar se não era uma questão minha. Nada: lá estava ela. “Claro, que vai sair. Não há nada que me faça perder essa camisa”. Tirei do cabide transparente de plástico; esfreguei mais; coloquei mais tira-manchas; esfreguei de novo. Nada. Em meio todo esse procedimento, me deparei com um rasgo no punho esquerdo. Parada diante do tanque, achei que eu mesmo teria causado o estrago. “Mas, só esfreguei a gola”. Não me mexi mais. Me deu um branco. Tirei todo o produto; enxaguei; deixei a água lavar a camisa por si só; pendurei de novo no tal cabide e pus pra secar. A maioria das peças, sentimentos, pessoas que eu amo não podem e nem devem ficar guardadas no armário por muito tempo. Amarelam, perdem o viço, perdem a função na minha vida.