Ela me esperou pra morrer. Aos 96 anos, já não tinha mais nada a dizer, a sonhar ou a fazer. Em poucos dias, minha avó brasileira foi se apagando como uma vela em noite de brisa suave.
Sabia que ela estava fraca. Uma manhã, corri pra vê-la quando minha tia aflita me ligou. Não queria mais comer nem ficar na janela verde da sua casa em uma ladeira a caminho do morro do Tuiuti, em São Cristóvão no Rio. Havia silêncio em todos os cômodos apesar da presença dos meus tios e pais. Os ruídos vinham do velho piso de tábua corrida e de um passarinho que cantava no quintal. Procurei fazer o menor barulho possível. Deitada em um sofá pequeno, parecia menor do que era. A respiração ora ofegava ora se tranquilizava. Cheguei a tempo de presenciar um leve sorriso no seu rosto no momento em que sentiu minha presença. Segurei sua mão: “Oi, vó. Tô aqui”. Segundos depois, se foi.
Meu nome, Guilhermina, é por causa dela. Essa homenagem sempre a deixou muito feliz. Era só agradecimento em orações, afeto e com um feijão com arroz que só ela sabia fazer. Era neta de escrava. Sua mãe nasceu logo depois da Lei do Ventre Livre de 1871. Do pai, dizem, nunca se comentou muito a respeito. Toda a família era do Morro do Estácio no centro da cidade, meu pai inclusive. Pequena e com voz baixa, mas firme, discreta, era respeitada por todos somente com o movimento do seu olhar. Teve dez filhos dos quais oito sobreviveram. Não sei como os outros faleceram. Não comentava.