De uma hora para outra, o bougainville da minha sacada se transformou num monte de gravetos. Perdeu as flores e quase todas as folhas. Não sei se foi a temperatura ou uma praga. Virou uma daquelas plantas artificiais de entrada de prédio mal cuidado. Me deu pena dele. Levei para uma área externa do edifício; limpei as folhas com um pano úmido; revolvi a terra; reguei com uma solução vitaminada. Quando acabei a operação, sentei ao lado dele.
Fui criada num quintal de um lar suburbano com mangueira, coqueiro, laranjeira e pé de sapoti em meio a galinhas, patos, cachorro e coelho. Tive também gatos, tartarugas. Ficavam soltos, corriam de um lado para o outro e conviviam bem na medida do possível. Certa vez, chorei durante uns dias: meu atrevido porquinho da índia, o vermelho Dundum, resolveu comer a comida da cachorra. A cena do sangue esparramado foi terrível. Apesar da relutância, tempos depois, diante da minha tristeza, meu pai apareceu com um outro preto e branco. Esse sumiu. Não sei o que aconteceu. Quem sabe, também foi morto do mesmo jeito. O evento deve ter sido escondido de mim. Andei por dias à procura dele pelas ruas do bairro.
Uma das minhas brincadeiras favoritas era remexer a terra nos canteiros para encontrar minhocas e formigas e mudar as plantas de lugar. Do quintal para o jardim e vice-versa. Às vezes, dava certo e elas sobreviviam — outras não. Aprendi que quanto mais eu cuidava, mais as plantas cresciam. Não era a quantidade de minutos que eu dedicava. Era a intensidade, o fato de estar por inteira na função de cuidar delas.
Olho para o bougainville. Me pergunto se ele vai sobreviver às minhas intervenções e se eu também sobreviverei à sua morte.