Passei uns meses fora de casa. No retorno, encontrei um acordo silencioso: alguns aparelhos resolveram pifar.

Na cozinha, o exaustor, uma boca do fogão e o filtro de água, cada um ao seu jeito, não funcionam bem. Não sei se foram os muitos picos de energia que aconteceram na cidade ou o tempo de uso. O ventilador do escritório faz um barulho do outro mundo, parece que vai sair voando pela janela. Fico pensando se já está antecipando os dias de calor prometidos pelo El Niño. Os ponteiros do relógio do mesmo cômodo pararam em 5h55 e lá ficaram. Dia desses, quase perdi minha aula de Espanhol. Achei que estava no horário, só que não. Estava atrasada e muito.

Descobri uma camisa, uma capa de almofada e uma bolsa tomadas de mofo em armários diferentes. Mesmo com as dicas da internet, não consegui salvar nada. Me doeu ter que jogar no lixo.

Uma das lâmpadas do corredor apagou de vez. A impressora não me obedece: já reiniciei o computador, liguei, desliguei mais de uma vez. Sem resposta. Os controles da tevê também se rebelaram. Troquei as pilhas, limpei pra remover a umidade. Nada.

O furor da arrumação explodiu dentro de mim em meio a muita irritação. Resolvi tirar tudo para fora dos armários. Doei mais livros e peças de roupa, troquei a mesa do escritório, que estava com manchas que não saíam nem com água sanitária.

Sabe-se lá quando vou acabar de fazer a faxina. Daí, como uma coisa puxa a outra, olho para a parede da sala e penso qual cor vou escolher. Uma cor diferente sempre alegra o ambiente e o coração.

No fundo, acho que minha mente com mais foco agradece e fica mais leve. O que não estava bom precisa ser trocado ou consertado.No fundo, acho que minha mente com mais foco agradece e fica mais leve. O que não estava bom precisa ser trocado ou consertado.

Agora, o que fazer com o relógio com o Mickey desenhado no fundo de que tanto gostava? Nem a troca de pilhas o fez voltar a funcionar.