“Tía Teté partió a su otra vida durante el sueño”, me escreveu um dos meus primos que vive na República Dominicana numa manhã.
Tia Thelma era a irmã mais velha da minha mãe. Tinha 103 anos e nenhuma doença aparente quando faleceu. Um pouquinho mais de uma semana antes de sua morte tinha deixado de comer, de falar, não queria mais sair da cama. Foi se despedindo.
Naquele dia, eu havia acordado às quatro horas da manhã. O sono tinha desistido de mim. Até tentei procurar por ele de novo, mas foi em vão. Como não tenho saco de ficar rolando pra lá e pra cá na cama, claro, levantei. Li algumas páginas de um livro, mensagens, posts, jornais. Lembrei de ter lido na revista ELA de O Globo, o texto “Seu tempo de vida depois da morte” de Martha Medeiros: “a boa notícia: enquanto alguém lembrar de você, a sua morte será parcial… Quem não é famoso, precisa garantir a própria imortalidade através da autêntica e sincera saudade”.
Outra tia centenária, dessa vez uma brasileira, se despediu numa tarde em sua casa em São Cristóvão. Sentada na sua poltrona predileta disse pra cuidadora: “estou indo”. O gerúndio – algo que acontece e continua acontecendo – está nas duas mortes. Sei que elas estão na minha lembrança.
Pra mim, meu pai e minha mãe, que já se foram aos 94 e 90 anos, estão vivos. Em uma segunda-feira qualquer, sinto sempre que vou receber a ligação matutina dela. Acontecesse o que acontecesse, estivesse eu onde estivesse – por exemplo, no Maracanã trabalhando – minha mãe me telefonaria. Fazia parte da rotina do seu dia e do meu também. Estar vivo é isso: ser lembrado.