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As tranças

Quase tarde de sábado: peixe no tempero, arroz pronto, feijão preto idem, mesa posta com toalha de plástico estampada. Lá fora, no quintal da casa de um subúrbio carioca, a menina sentada em uma cadeira de madeira vermelha. A mãe tinha um pente de dentes grandes para desembaraçar os cabelos sem machucar; fazia massagem com azeite, gema de ovo e, às vezes, com babosa. Sobre as duas, o sol quente brilhava. Segundo a mãe, ajudava na saúde dos fios.


A menina nunca sofreu com os piolhos e sempre era elogiada pela juba negra, ondulada e de fios grossos. O ritual prosseguia com a montagem de duas tranças presas no alto da cabeça, que por lá ficavam até a hora de retirar toda aquela mistura. A caixa d’água da pequena casa ia ao volume mínimo pra dar conta da lavagem da cabeleira. As brincadeiras no intervalo do tratamento precisavam ser dentro de casa. O cheiro não era dos melhores.


As coleguinhas, praticamente, todas filhas ou netas de portugueses e espanhóis, tinham cabelos lisos e fios domáveis. As poucas negras e as pardas viviam com um coque na nuca preso por um laço azul-marinho de fita de gorgurão que fazia parte do uniforme. Era assim que a menina ia para o colégio de freiras todos os dias. As duas tranças laterais eram uma opção.


Um dia, vi Rita Lee na televisão. Queria aqueles cabelos.


Na adolescência, os meus foram alisados com uma pasta fedorenta. Valia a pena o incômodo. Pude usá-los soltos ou em um rabo de cavalo. Mas, a touca de natação não segurava aquela quantidade de fios. Sempre caía na minha cara; perdia o rumo dentro da piscina; acabava levando bronca do professor. Um dia, aquele monte de cabelos ficou no chão do cabeleireiro. Dali, fui experimentando cortes diferentes e sempre curtos. Tenho preguiça de arrumá-los até hoje.


Acho que minha paciência ficou nas tardes que passei sob os cuidados da minha mãe.