“Entra já. Sai daí. Futebol não é coisa pra menina”. Queria participar do time da rua onde morávamos num subúrbio do Rio. Meu irmão fazia parte dele. Os meninos jogavam descalços; vire e mexe um esfolava o dedo do pé ou ralava os joelhos. Era divertido acompanhar a velha bola que desfilava pra lá, pra cá na tentativa de vencer a baliza de pedaços de pau de um dos lados — a bola que caía nos jardins das casas coloridas, que enlouquecia os cachorros, que irritava os vizinhos mais chatos.
Aos quatro anos, fiz minha estreia nas arquibancadas de concreto do antigo Maracanã. Esse programa de domingo não era comum para uma garota. Meu pai gostava muito de futebol, torcia para o América e um dos seus irmãos para o Flamengo. Os dois me ajudavam a subir os degraus muito altos. De jogo em jogo, meu amor pelo Flamengo, pelo futebol e pelo estádio foi aumentando. Sofri; torci muito; quase fiquei sem a unha do dedo mindinho da mão direita; precisei ir ao banheiro no meio de várias partidas. Me aborreci com as injustiças que só torcedor apaixonado enxerga como tal. Com os anos, aprendi que os três fazem parte da minha vida.
Participei dos Jogos Pan-Americanos em 2007, trabalhei na Copa do Mundo em 2014 e nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Meu pai vibrou quando soube que eu estaria na equipe que organizava a segunda Copa do Mundo no Brasil e no Maracanã. Trabalhei muito, dormi pouco, mas sempre sentia aquela satisfação que era só minha: estar num local que me viu crescer.
No domingo da final entre Alemanha e Argentina, algumas horas antes de começar o jogo, meu pai ligou. Eu estava bem enrolada. Rádio apitando; o segundo celular vibrando no bolso; agente de segurança pedindo orientação; delegado da PF querendo checar novamente as rotas de fuga; equipe de limpeza perguntando se devia usar mais ou menos água sanitária nos banheiros. Ele me desejou boa sorte. “Vou torcer pra Alemanha apesar do 7 x 1. Melhor time, minha filha”. “Beijos, pai. Nos falamos à noite”.
Com o jogo começado, escondida, chorei muito. Mesmo transformado, o Maracanã presenciou minha vida de torcedora, de amante de futebol e de profissional de grandes eventos. Meu pai faleceu dois meses depois, aos 93 anos.
*Texto selecionado para a antologia “Boleiros” da Selo OFF Flip.