¡Vamos! Apúrate. Vamos a perder el autobús. Tenemos que llegar a las 11 a la casa de tu abuela.
Ela corria pra se arrumar. A mãe colocava o melhor vestido e o sapato de “sair”, branco com tirinha sobre o pé. O vestido era sempre em azul e branco, as cores do manto da santa.
Moravam num subúrbio carioca. Ônibus com hora marcada. Se perdessem um, outro só muito tempo depois. Os três, ela, o irmão menor e a mãe, que nem postes na parada. Todos arrumadinhos, cheirosos e nada de ônibus. Pior era nos dias de muito sol. Uma só sombrinha encarnada para todos. Os irmãos agarradinhos debaixo da asa da galinha-mãe. A mãe suava, tentava pegar o abanico ou o lenço branco de algodão na bolsa bege pra enxugar as gotas que escorriam pela pele clara levemente rosada com o rouge vermelho. O destino: a casa da avó, uma construção de 1918 com janelas altas verdes, descascadas, numa ladeira a caminho do morro do Tuiuti em São Cristóvão.
De lá, ela iria com as tias à Confeitaria Colombo no Centro do Rio. Não sem antes passar em alguma igreja das cercanias pra pagar uma das muitas promessas pela sua saúde. As obrigações eram cumpridas na igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Praça 15, ou na igreja da Candelária. Ambas perto da Confeitaria Colombo, ali, numa rua de paralelepípedos escorregadios, a Gonçalves Dias. Bolo de laranja, chocolate quente, balinhas coloridas, biscoitos. Espelhos, bules, talheres de prata e louças com fios dourados na borda. Parecia um castelo, cenário de algum baile de princesa dos livros.
Em um desses passeios, conheceu o Teatro Municipal. Achou que era mais um castelo e daqueles muito grandes. Parecia que a qualquer instante, outra princesa iria descer daquelas escadarias de mármore com um vestido comprido e mais bonito do que o dela, talvez em rosa e dourado. Já na adolescência, se controlou pra não tremer e errar as notas durante uma apresentação no palco do teatro do coral do seu Colégio Pedro II. Espetáculos de dança, música, orquestra sinfônica, visita do Papa Francisco, coordenação do evento de lançamento da novela “Senhora do Destino” de Aguinaldo Silva: tudo aconteceu em um dos castelos da minha infância.