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Tiro fotos como quem colhe

Eu não sei quando comecei a reparar em jardins e flores.

Talvez tenha sido coisa da casa de subúrbio da infância e adolescência. Ou, quem sabe, coisa de mãe e de pai que gostavam de um lar preenchido de plantas de tudo quando é tipo. Acho que imaginavam que todo cuidado cabia dentro de um canto do quintal cheio de árvores frutíferas ou de um vaso de cerâmica na varanda de lajotas vermelhas. Eles queriam, de verdade, um jardim. A casa era só o pretexto.

Herdei isso sem perceber. Quando criança mexia na terra, nas plantas e tentava cuidar delas. Fiquei com esse olhar cuidadoso, gentil de se encantar com as cores das flores. Aquele vício silencioso de parar diante de um canteiro bem cuidado e sentir que o mundo, por um instante, está em ordem. Tiro fotos como quem colhe. Não sei se vou lembrar da cor exata, da disposição das pétalas, daquela luz específica do instante do clique. Daí, que fotografo mesmo.

Penso nisso agora já instalada nesta minha versão provisória na Alemanha. Penso no jardim da minha mãe, nas flores que fotografo para não esquecer, no cravo de Frankfurt, do frio que não deixa o calor se aproximar da primavera alemã. As manhãs têm sido frias, entre quatro e oito graus. Agora, as noites estão mais claras com temperatura de 16 graus.

Passo na beira do rio Neckar, em Mannheim, já tem flor. Caminho um pouco mais e me deparo com uma banca de flores coloridas na calçada. Vou ao supermercado e já na entrada esbarro numa banca enorme de arranjos prontos, vasinhos, buquês de rosas, tulipas. Me aproximo de uma casa de dois andares e o jardim está cheio de hortênsias de muitos tons diferentes. Tudo faz parte de uma passagem dessa minha vida dividida em três, entre o voo e a chegada, entre o Brasil, Portugal e Alemanha, entre o que eu era e o que ainda não sei se sou.

Talvez eu seja isso: alguém que coleciona flores nos intervalos dos dias, que fotografa jardins e bancas de flores pra dar conta da minha herança e decide que aquilo é um sinal, não porque seja, mas porque precisa ser. E talvez isso baste.