Cheguei a Lisboa depois de um voo tranquilo da TAP saindo do Rio.
Como me confundo com o fuso horário – de quatro horas nessa época do ano – e como o avião se antecipou em uma hora, aterrissei meio tonta. Achei que estava chegando num aeroporto fantasma com mais 259 pessoas que passaram a noite comigo com o relógio marcando quatro horas e meia de uma madrugada fria de primavera: 8 graus. Foi como se eu estivesse meio no Brasil, meio em Portugal, dois mundos. Me sinto partida pela metade – duas cidades lindas, dois modos de pedir café com leite – meia de leite na proporção de 50% café e 50% leite em uma chávena grande nos cardápios portugueses –, dois sotaques que já emergem ao primeiro “bom dia” da tripulação e da equipe de terra. É como se eu pertencesse, ao mesmo tempo, a dois espaços.
O dia ainda não havia nascido. Depois, ficou meio nublado: uma luz difusa que não se compromete nem com o sol nem com a chuva. E eu, ali, no meio desse clima indeciso de primavera, também não me comprometia com nenhuma versão de mim. Era cedo demais para refletir. Havia só o cansaço e uma espécie de ternura imprecisa por tudo – pelos corredores burocráticos, pela confusão do processo de checagem de passageiros, pelas cadeiras cinzas de metal do caminho até área de alimentação do aeroporto, pelo sotaque familiar dos policiais que eu já não sei se é familiar porque é meu ou porque aprendi a fingir que é.
Bem, mas como tudo na minha vida é um balanço, na hora de comprar um café com um pãozinho para o meu marido: “Bom dia, como posso servi-la, senhora?”. A moça era do interior de Minas. Levei um susto. Ela sorriu com meu espanto.