Na escola, era louca por caixas de lápis de cor.
Eu tinha apenas caixinhas com seis cores e lápis pequenos. Na minha turma, muita gente tinha as caixas cheias de lápis grandes e de todas as cores. Num Natal longínquo, pedi uma com 72 tons.
Tinha predileção especial pela gama dos azuis — aquela que começa com o verde azulado e vai ficando azul até encontrar o lilás bem claro. Tomava muito cuidado na hora de usar o apontador. Não queria que, principalmente, os azuis acabassem rápido demais.
Dia desses tive um sonho com esses lápis e sua variação de azuis. Eu voava alto por cima da vida, dos rios, das florestas. Voei com a brisa. Somente as árvores que ficavam menores a cada segundo confirmavam que eu estava cada vez mais alto. Não havia nuvens. O dia claro e seco — era outono — ajudava na percepção da altura. Nesse voo, me via dentro do tom de azul do lápis que fica no meio da gama: nem tão claro, nem azul marinho. A luminosidade envolvia meu corpo com graça e força. Me sentia segura, como nos braços maternos, e ao mesmo tempo livre. Aterrissei do outro lado da caixa, no meio das nuances dos amarelos, laranjas e marrons. Acordei.
Na infância, imaginava que minha vida seria como uma caixa de lápis de cor com 500 tonalidades. Hoje, essa caixa existe de verdade nas prateleiras das lojas ou na Amazon. Naquela época, existia somente na minha imaginação de menina.