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Um alemão

Ele carregava uma pastinha marrom com muitas folhas, lápis, canetas, carimbos.  A camisa parecia sempre a mesma, bege bem claro. Os sapatos eram grandes, pretos e foscos como se nunca tivessem visto graxa. Os cabelos quase raspados e louros ficavam espetados para o alto. Falava alto, ria mais alto ainda e sempre achava muita graça em tudo. Quando vinha pelo corredor, parecia que o Shrek se aproximava.

Herr Klug era uma figuraça que vestia terno cinza com chuva ou sol. Foi meu primeiro professor de Alemão no colégio Pedro II de São Cristóvão no Rio, há mais de 50 anos. Was ist das? Acho que foi a primeira frase. Silêncio. Mein name ist Klug. Isso deu pra entender. Daí em diante foi uma saraivada de palavras e construções gramaticais estranhas e compridas, bocas abertas e olhares perdidos. Nos olhávamos e nos perguntávamos por que escolher o Alemão como a segunda língua obrigatória do currículo. Loucos, ele mesmo disse num português cheio de sotaque.

Anos depois, o reencontrei na PUC-Rio, quando também frequentei suas aulas. Hoje, meu filho e nora vivem na Alemanha há quase 10 anos. A eles, se juntou Nina, minha neta que desde os quatro meses frequenta uma creche com cuidadoras e coleguinhas alemães ou também filhos de estrangeiros que falam Alemão. Eu vou me virando. Ainda continuo lutando pra sair do nível A1.  Depois de Herr Klug  tive outros professores. No entanto, a cada vez que o caixa do supermercado me diz “Tchüss!” ou “Schon Tag!” é dele que lembro.