Ando desmontando a casa de um familiar que faleceu há cinco anos. Já estou nesse trabalho há alguns meses.
Sei, que aí do outro lado, você pode argumentar: “nossa, por que esperar tanto tempo para desfazer um lar que já não deve servir a ninguém? Eu também me faço quase que diariamente a mesma pergunta. Sem resposta.
Tento buscar as razões para manter armários repletos de roupas, toalhas, lençóis, sapatos. Por que deixar que livros e documentos sejam cobertos pela poeira do tempo e do esquecimento? Por que lembranças se misturam a papeis descartáveis, envelopes amassados, folhas amareladas? Tudo sem sentido, ao menos, para mim.
Já tive esse tipo de conversa com muita gente. Acabei descobrindo que é um assunto recorrente. Quase todo mundo passa pela mesma situação. A família muda, a atitude não. Dor da perda que não foi assimilada após a morte ou imobilização diante da vida diferente sem a pessoa que se foi?
Acredito que sempre há também o receio de penetrar em cômodos carregados de memórias, sejam boas ou não. Seria como destampar uma lata de emoções e de tarefas desconhecidas. Ninguém sabe bem como se comportar e o que fazer com o amontoado de decisões físicas e espirituais que precisam ser tomadas.
Imagens são fortes. Podem emocionar, destruir e, muitas vezes, nos fazem refletir. Daí que a visão de uma cupinzana me deu um sacolejo de realidade nessa atual fase.
Já contei por aqui que acredito que arrumar gavetas e armários ajudam a pensar e a superar a depressão. Portanto, depois de alguns dias de faxina, descarte e doações, resolvi abrir um grande armário. A porta quase caiu nas minhas mãos. Percebi que não havia mais fundo. Uma quantidade imensa de cupins passeava pelas prateleiras e livros restantes e carcomidos. O cheiro era terrível.
Peguei a máscara no bolso e me afastei. Precisei pensar bem como agir para que eles não se espalhassem. Jogamos querosene para diminuir a ansiedade deles. Esperamos um pouco e conseguimos quebrar o que restava de madeira. Tudo foi para o lixo, inclusive os restos dos bichos.
“Assim por fora, como por dentro”. Nada do que havia naquele móvel prestava mais. Havia sido engolido pelos insetos. A emoção da casa também estava sendo tragada pela paralisia que se abateu sobre a família.
Destruir o armário e lavar o espaço com água sanitária deixou o ar mais leve. A luz do sol vinda de um basculante ajudou.
A nossa alma não pode ser devorada por bichos, medos, angústia do desconhecido. Emoções precisam ser enfrentadas.
Continuamos em vida a coexistir com a saudade, mas com nossos cômodos internos livres e limpos. Fica o amor.