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Saudade do cine “Santa Maria”

Ele se chamava “Santa Maria”. Era pequeno — acho que não mais de 70 lugares —, poltronas de madeira, chão vermelho pintado, bilheteria acanhada. Assim era o pequeno cinema que resistiu por alguns anos no subúrbio carioca, na região da estrada Rio Douro, onde vivi. Fez parte de uma infância sem muita oportunidade de entretenimento além das brincadeiras no quintal de casa. É bem verdade que o parque da Penha e as festas de outras igrejas me proporcionaram momentos de muita alegria e diversão.

Quando assisti ao filme “O Agente Secreto”, me lembrei dele. O “Cinema São Luiz”, no centro de Recife, é um personagem imaterial e incrível do roteiro — bem mais icônico e bonito que o velho “poeira” da minha infância. No entanto, algumas coisas não mudam. O clima de tela grande; a expectativa e a magia logo que as luzes se apagam; o rugido do leão da MGM,  que até hoje me emociona mesmo no streaming; a sala com os velhos projetores que vire e mexe pifavam e nos deixavam muito chateados; a lanterna que se mexia como um vagalume; os casais aos beijos e “amassos”.

Foi no “Santa Maria” que assisti não sei quantas vezes à “Noviça Rebelde”. Sabia de cor as músicas e qual cena viria depois da outra. Por ser um cinema de bairro, não tinha a mesma velocidade de exibição de outros espaços do centro do Rio. Os lançamentos, sucessos ou não, demoravam a chegar por lá. Quando chegavam, eu aproveitava os precinhos e a chance de embarcar na sala escura de um cinema a a poucos passos de casa.

O cine “Santa Maria” ocupou um imóvel improvisado em uma rua pequena. Nunca se soube quem era o seu proprietário ou se rendia o suficiente para pagar o bilheteiro, que também era o lanterninha, e a vendedora da pipoca — eu gostava da doce misturada com salgada. Não sei quanto durou. Depois foi depósito de bebidas, mercadinho e um monte de comércios sem futuro até se transformar em mais um espaço degradado suburbano. Não faz muito tempo passei por lá e me pareceu que estaria em vias de ser bar de fim de semana com churrasco e cerveja. Não sei se vingou.

Me deixou órfã quando fechou definitivamente as portas. Daí passei a depender do meu pai pra frequentar outros espaços em bairros mais distantes, que demandavam transporte público. Na Penha, assisti “Help” no cine São Pedro, por exemplo. Esse sim com características parecidas com o “Cinema São Luiz” de “O Agente Secreto”: colunas, piso de mármore envelhecido, mas de mármore, portas de metal, muitos cartazes espalhados no saguão, cortinas nas laterais da imensa tela.