Tudo era preto e branco. Não era uma foto, não era um filme, não era um sonho. Tudo era real e  envolvido por esse mar bicolor. Pessoas, chapéus, mastros, luvas e eu.

O balanço era suave e cadenciado. O volume desse mar preto e branco se mexia num compasso contínuo e compacto, inclusive as marolinhas e as ondas mais altas que iam e vinham como se ensaiadas. Não dava pra se mexer sozinha, somente em conjunto. Não dava pra ver os pés. As mãos se escondiam em algum espaço preenchido também pelo mar bicolor. Os rostos se misturavam na mesma combinação contrastante das duas cores.

Não eram os cheiros que permeavam o espaço, mas as golas fartas das fantasias largas de milhares de pierrôs, mulheres e homens, que se espalhavam pelo asfalto. Um mar de pompons em preto e branco. Me perdi no meio deles.

Foi assim que conheci uma ala de escola de samba por dentro na minha primeira cobertura como jornalista num Carnaval. Não lembro o ano; não lembro o nome da escola; não lembro o enredo.

Só sei que naveguei naquele mar em preto e branco de jeans e camiseta em meio aos pierrôs apaixonados e melancólicos. Cheguei à dispersão envolvida por eles, por seus sorrisos, pelo samba, pela bateria, pelo Carnaval.