“Vamos não quero me atrasar. Que tristeza, meu Deus!”. Naquela quente manhã de março, dona Jacinta e Neca saíram cedo de casa. Teriam que ser as primeiras a chegar ao velório de Milton, marido e pai. Os vizinhos da família, todos moradores de pequena vila de um subúrbio do Rio, combinaram de pegar dois táxis e ir ao mesmo tempo. Um aneurisma tirou a vida de Milton que foi encontrado no chão do banheiro sem roupa e com o chuveiro ligado.
O dia era um daqueles quando parece que a cidade fica coberta por uma grande lona cinza encardida. Abafado, sem brisa. As pessoas se acotovelavam na porta estreita da capela. Lenços suados, leques e pedaços de papel batiam no ar pra amenizar também o cheiro das flores murchas sobre o caixão. Um pouco antes do término do velório, um homem alto e vestindo terno roxo entrou na capela. Não pediu licença. Não cumprimentou ninguém. Se colocou ao lado do caixão e pediu que todos se concentrassem no que ele tinha a comunicar.
-— Senhoras e senhores, não vou me apresentar nem dizer o que faço. Só vim aqui a pedido do falecido.
Abriu uma pasta preta de onde tirou um envelope e depois uma carta escrita à mão. Limpou a garganta, em tom solene e voz rouca:
“Jacinta, esse é o momento de dizer porque não comprei aquele jogo de sofá. Precisei comprar vestido, bolsa e sapatos para a Neuza. Sei que você não sabe, mas tive com ela uma vida de marido e mulher da mesma forma que tive com você. Começou há 10 anos. Não consegui ficar longe nem de uma nem de outra. É hora de dizer também para o José que Neuza e eu tentamos contar tudo mais de uma vez. Mas, sempre acontecia alguma coisa. Jacinta, tenha certeza que sempre foi muito difícil te deixar. Nunca faria isso. Neuza também não queria deixar o José. Mandei encomendar o conjunto de sala com estofado na cor verde com flores beges e marrons que você sempre quis. Deixei tudo acertado caso eu viesse a falecer. Deve chegar antes da missa de sétimo dia”.
Milton
Quando acabou a leitura, o homem de terno roxo dobrou a carta e a entregou à viúva. Com a pasta debaixo do braço, saiu do mesmo jeito que entrou: sem dar satisfação. Abriu caminho em meio às pessoas paralisadas. Dona Jacinta parou de chorar. Confusa, começou a se agitar em meio às pessoas. Empurrava um e outro na tentativa de encontrar Neuza, a vizinha amante, que ela jurava deveria estar no velório. Em vão. Picotou a carta, sambou em cima dos pedacinhos. José, o marido traído, saiu afobado; correu atrás do tal homem de terno roxo; tropeçou; caiu e acabou perdendo os sentidos. Foi acudido pelos coveiros.
— Olhe, minha gente, coisas mundanas são problemas dos vivos, não dos mortos. Vamos encomendar o corpo agora. Depois, vocês se resolvem. Já tem outro velório pra começar.
O padre tentava diminuir a tensão, acabar com a confusão. Ordenou o fechamento do caixão e a retirada dele.
Ninguém acompanhou o enterro de Milton até a cova rasa reservada. Dona Jacinta se transformou em uma pessoa que a filha não conhecia nem os vizinhos. Abriu uma longa lista de palavrões e frases raivosas. A escandalizada família do outro morto reclamou muito. O padre pediu a retirada da dona de casa da área. Os vizinhos a arrastaram a força para fora do cemitério. Os gritos e xingamentos ouvidos devem ter ficado nos ouvidos das pessoas durante horas.
***
Cinco dias depois, uma pessoa bateu à porta da casa 2. Era a tal encomenda feita pelo morto. O rapaz foi recebido a pontapés e com mais palavrões por dona Jacinta. O entregador ficou sem saber o que fazer diante de tamanha cólera. Em voz alta, a dona de casa começou a recitar com deboche partes da tal carta.
— Rapaz, e, eu? Me fudi. Canalha, mil vezes canalha, que, ainda por cima, manda um homem estranho contar sobre o caso com a vizinha no meio do velório. Pode ir embora. Não quero essa merda de sofá nem pintado de ouro. Se não sair agora, chamo a polícia. Saia já!
O entregador ficou com medo de levar uma surra. Foi aconselhado por Neca a levar a mercadoria e retornar outro dia. Das frestas das janelas, a vizinhança da vila acompanhava a cena. Ninguém ainda havia digerido o escândalo da traição de Milton e de Neuza, vizinhos de longa data. Onde os amantes se encontrariam naqueles dez anos de um romance sem que ninguém percebesse?
Não houve missa de sétimo dia. Desde o escândalo, nunca mais ninguém viu o casal da casa de número 5 nem sabia se ainda estavam juntos. Será que o coração de José havia suportado a traição? Os dois sumiram. “A vagabunda vivia me pedindo açúcar. Queria a minha receita de bolo de laranja. Vivia dizendo que nunca havia provado um bolo de aipim como o meu. Piranha! E eu achando que era minha amiga. Ah, vaca, um dia vou te achar! Ah, vou!”
Neca resolveu se mudar da vila. Dona Jacinta refutou. De tanto insistir, a filha conseguiu, ao menos, que a mãe fosse ver uma casa em outro bairro.
— Não, não! Como vou fazer meus bolos? A cozinha é muito apertada. E não tem jardim para as minhas rosas amarelas. Aliás, preciso até resolver o problema das formigas, sabe? Não, mil vezes não: não vou trocar de casa mesmo que ela me traga lembranças do monte de chifres e daquela piranha de cabelo louro.
***
Um ano após a morte de Milton, cogitou-se marcar uma missa. “De jeito nenhum. Cafajeste não merece”.
Tempos depois, na volta da feira, dona Jacinta deu de cara com a ex-amante do marido acompanhada de um homem bem alto. Sentiu a raiva subir pelo seu corpo, se contorceu, mas conseguiu se controlar. Tinha vergonha de passar recibo de traída, mesmo que a dor e o ódio ainda fossem gigantescos e dolorosos . Neuza muito sem jeito foi logo apresentando seu novo marido. Nervosa, começou a falar muito, depressa, quase engolia as palavras. Nem respirava. Contou que agora estava morando em uma rua ali perto, que José havia voltado para sua cidade natal, que ela estava à procura de emprego, que sentia falta dos bolos, perguntou por Neca, pelos vizinhos.
—Tá tudo bem.
Dona Jacinta respondeu com o olhar perdido em algum ponto do universo para não dar espaço à sua gana de esmurrar a cara dela.
— Ah, onde é mesmo a sua nova casa, Neuza?
***
Dois meses depois desse encontro, a vizinhança voltou a se reunir no mesmo cemitério. Dona Jacinta teve um desmaio na cozinha. Foi acudida pela filha e pelo vizinho do lado. Chegou sem vida ao hospital.
Debaixo de uma chuva insistente, os vizinhos se apertavam na capela. De repente, o homem de terno roxo surge na porta. Trazia uma rosa amarela no bolso do paletó. Fechou o guarda-chuva preto e secou as mãos com um lenço branco. Espantados mas, conhecedores da dinâmica da misteriosa presença, se mantiveram em silêncio.
— Prezados e prezadas, acho que todos já me conhecem. Estou aqui a pedido da falecida Jacinta Marques.
Abriu a mesma pasta preta, tirou um envelope e de dentro dele, uma carta.
“Vizinhos e amigos, vocês sabem o que passei. Sofri muito com a traição do Milton. Dessa vez, a morte apontou o dedo para mim. Quero dizer que fui eu que acabou com a Neuza. Merecido. Coloquei veneno para formigas nos bolos que levava para ela. Nem percebeu. Meu único pedido: não quero ser enterrada perto daqueles dois traidores. Peço perdão a você, Neca”.
Jacinta
Na semana anterior, Neuza havia sido enterrada em uma cova rasa ao lado de Milton para desespero do recém viúvo.