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Mais sobre sonhos

“A rua era de paralepípedos. Escuros e úmidos, eram a prova de que uma chuva fina havia acabado de cair. A noite também vinha chegando devagar. Sem lua, pouca luz. Eu ia subindo essa rua junto com vários personagens: todos eles fazem ou fizeram parte da minha família brasileira. Era uma trupe que ia vencendo a leve inclinação pouco a pouco”.

Desafio. Foi o que primeiro pensei ao acordar. Imaginei até que poderia ser um rascunho para escrever um conto.  Já tive ideias ao levantar pela manhã. Nunca sei se foi um sonho, forte emoção ou insight. Só sigo o fluxo mental. Algumas vezes, renderam. Outras se mostram um grande fiasco.

Como não sou de lembrar dos meus sonhos nem de procurar o porquê, de fato achei estranho. Às vezes, quando lembro de um sonho com alguém já morto, familiar ou não, por exemplo, acho que estão à beira da minha cama. Foi assim que sonhei com a minha avô no dia do seu enterro. Sem palavras ou sinais, a figura sumiu em silêncio e com um leve sorriso. “Estou bem. Não se preocupe”, foi o que achei que a visita queria me dizer naquela noite.

Li que a gente sonha porque o cérebro necessita processar informações do dia a dia, emoções e memórias durante o sono. Boa explicação. Pode ser, quem sabe, o motivo pelo qual sonhei com a minha avô.  No entanto,  as imagens desse sonho me chacoalharam o dia inteiro. Os por quês me rondaram na ida para a academia, no supermercado, no caminho até o metrô, na arrumação do almoço. Era tudo tão inusitado.

Minha família no Brasil cabe em uma van. Foi definhando sem que outros ocupassem seu lugar. A parte materna sim está espalhada por vários países nas Américas e na Europa. Consigo me comunicar pelas redes sociais, principalmente, quando furacões atingem a República Dominicana ou chuvas torrenciais desabam sobre a Espanha. É uma maneira de aliviar a minha alma. Então por que os personagens conhecidos do tal sonho eram todos brasileiros? Havia pessoas que eu nem sabia quem eram, mas que eu tinha certeza que faziam parte da família. Antepassados? Outros que ainda farão parte da família? Sem resposta. Se meu cérebro estava processando informações, acho que elas eram e são desconhecidas de mim mesma. Pensando: se rendeu essa crônica, pode ser a base para um conto.

Abaixo o restante do sonho.

“As vozes eram confusas. Ou melhor, se confundiam com outros ruídos incompreensíveis. De forma alguma, prejudicavam o caminho. Não sabia bem quem e por qual razão falavam tanto. Só tinha certeza de que todos eram familiares. E a caminhada rua acima continuava.

Ao fundo, vi um muro de tijolinhos escurecidos manchados pela chuva de minutos atrás. De perto, parecia mais alto. Sabe-se lá por qual razão, resolvi subir o tal muro. Não senti desafio. Só sei que comecei a galgar o muro me arrastando como um inseto. Sozinha. Todos aqueles que me acompanhavam ficaram na base do muro. Não tentaram nem ameaçaram subir. Chegando ao topo, ouvi uma voz que dizia qual era o meu nome. Era a voz do meu pai. Não o vi. Não sei se estava ou não ao meu lado. Só sei que escutei meu nome da certidão de nascimento. Acordei do sonho”.