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É preciso mergulhar na magia da leitura

Dia desses, estava na plataforma de uma estação aguardando o metrô. Me coloquei bem debaixo de uma luminária – nem todas têm a mesma luminosidade – para seguir na leitura de um livro. Me assustei quando uma voz feminina ficou bem perto e disse que aquela cena era cada vez menos comum: ler e, principalmente, na rua.

Abandonei a leitura e respondi que era o melhor jeito de aguardar meu retorno para casa ou a minha vez na fisioterapia. Ela completou que ficou feliz em constatar que ainda havia gente como eu que gostava de ler.

O metrô chegou. Cada uma foi para um vagão diferente. Já sentada, refleti o que seria “gente como eu ”. Sempre fui apaixonada por livros e pela leitura. Custo imaginar que essa paixão não esteja presente na existência de outras pessoas. Não é pela quantidade de livros lidos e, sim, pelo magia da leitura.

Algo incomum na década dos anos 1950, aos três anos e meio fui matriculada em uma escola de freiras no subúrbio onde morávamos. Não havia creche. Só escutava e me comunicava em espanhol – minha mãe era da República Dominicana. Vivia preocupada que eu nunca falaria ou leria bem o português. Poucos meses depois, já estava alfabetizada em português para alívio dos meus pais. Foi tudo bem rápido.

Cedo tive contato com as estantes de livros infantis, depois com gibis, com o clube do livro, com as bibliotecas dos colégios e com a minha paixão, a Biblioteca Nacional no centro do Rio. Ler é algo tão entranhado no minha vida que a análise daquela passageira me soou meio fora do lugar. Me achei uma extraterrestre.

Essa semana, li a respeito de uma pesquisa que afirma que o Brasil perdeu mais de 7 milhões de leitores em todas as faixas etárias e de escolaridade nos últimos cinco anos. Assustador. A pesquisa aponta também que “mais da metade da população brasileira não lê livros, 87% do público leitor e 70% dos não leitores” – apesar de passar boa parte do dia diante de aplicativos de mensagens ou de bate-papo.

Os números dos que utilizam o tempo livre para navegar na internet vem crescendo desde 2015. Os resultados também refletem o impacto que a pandemia provocou na rotina escolar, o consequente atraso no letramento dos mais jovens e a falta de distribuição de livros. Sempre imaginei que, de fato, essa seria a realidade do país. No entanto, quando é transformada em cifras, tudo fica mais aterrorizante.

Sem o treinamento da leitura como interpretar uma frase, um enunciado de um produto em um APP de vendas, checar se uma cobrança está correta, por exemplo? Como não ser enganado ou iludido? Como passar em um concurso ou prova? Como entender um manual mesmo que digital? É um desafio enorme.

Não sei como agir. Daqui do meu cantinho em frente à minha tela fico pensando nesse enigma: por que não ler?

Vire e mexe, volto ao tema. Aprendi, sonhei e viajei tanto mergulhada nos livros que gostaria de ter a capacidade de transmitir a alegria e a satisfação em fazer parte das histórias que cada autor ou autora escreve. É mágico.
Sem pesquisa alguma, aquela passageira desconhecida soube dar seu veredicto.