Eu amava a visita que o colégio programava à fábrica de massas e biscoitos Marilú. Ficava na região do porto do Rio. Hoje, não existe mais. Era uma festa de cheiros, sabores, sons e um enorme impulso à minha cabeça agitada pra inventar histórias. Antes da data do passeio, passava dias imaginando o que aconteceria naquela estrutura, nas escadas de metal, nos grandes tanques onde os produtos eram processados, quem mandava em tudo aquilo. Amava mais ainda o lanche que serviam ao final das visitas: biscoito até a barriga doer e suco de laranja.
Queria ser a dona daquela fábrica.
Era uma das poucas saídas que a vida de menina de subúrbio me dava. Eu enxergava o mundo através dos livros e dos gibis emprestados, de uma tevê em preto e branco ou da janela dos ônibus no trajeto até a casa da minha avó.
Certo ano, em um desses passeios, choveu muito no retorno. Sentada na janela do ônibus escolar, eu observava a batalha que os outros carros faziam para ultrapassar as marolas da Avenida Brasil. Nem ouvia as palavras das outras meninas. Minha única preocupação era que a fábrica ficasse a salvo daquela chuva. Rezei pra que nada acontecesse.
Em uma aula da semana seguinte, as alunas precisavam entregar uma redação sobre a visita. Quando recebi de volta a minha, havia um “10” e do lado um “0”. Pulei do meu lugar e fui atrás da irmã Sofia. Nem terminei a minha frase: “Maria Guilhermina, a redação era sobre a visita e não sobre o dilúvio e a Arca de Noé”.