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De vestido amarelo

“Amorrr, vamu logo. Não quero chegar atrasada”. Solange vestia um longo amarelo com as costas nuas. As sandálias vermelhas e de saltos muitos altos deixavam à mostra as unhas dos pés pintadas de dourado cintilante. Passou semanas programando o visual. Sonhava em causar inveja.

Já passava de 9 horas da noite quando Ricardo, enrolado com o nó da gravata listrada, ouvia a voz da mulher que vinha da sala. Ainda se arrumando, pegou as chaves do carro. Saiu na correria para a festa de 50 anos do amigo Beto. Os dois eram colegas de escritório desde que haviam se formado em Direito.

No salão cheio de gente nem tão conhecida assim, o casal espalhava um rastro de atenção para homens e mulheres. Bem sucedidos, malhados, com um sorriso fabricado em um branco iluminado passava aquela sensação de felicidade plena. Impossível não admirar aqueles dois. Pelo jeito, a ideia de ser invejada estava dando certo.

Já passava de meia-noite, quando o DJ colocou “Love is the air”. Ricardo e Solange pularam para a pista. Deslizando.

Pouco tempo depois, ele tropeçou em si mesmo e caiu. Ela foi junto já que em cima daqueles saltos finos foi difícil segurar o marido. À beira de um desmaio, urrando de dor, suando muito foi suspenso por alguns amigos.

A festa, claro, parou. Grita daqui. Grita dali. “Tem um médico aí?” Sem resposta. Solange em lágrimas, maquiagem borrando, até que uma ambulância levou o marido desacordado.

“Humm, acho que bebeu demais. Que vergonha.  Cá pra nós. Na festa do amigo!”. “Que nada, deve ter sido a mistura de Aperol com uísque”. “Chiii, acho que foi aquele remédio pra emagrecer. Viu como ele tá magro?” É…pode ser. Álcool com essas fórmulas não presta mesmo”.

“Love is in the air, everywhere I look around

Love is in the air, every sight and every sound”

Por ordem do responsável pelo evento, o DJ retornou. Os convidados esqueceram do acontecido. Ao menos, foi o que pareceu, apesar da desabada e desconsolada mulher de amarelo sentada em um canto. Por ordem médica, não recebeu autorização para acompanhar o marido. Melhor esperar.

No meio da madrugada, o aniversariante Beto, compadecido do estado de Solange, resolveu partir para o hospital com ela. A festa já estava no fim mesmo. Era hora de ajudar o amigo.

Lá chegando, descobriram que ele estava na sala de cirurgia. Apêndice supurado. Mais um pouco, a inflamação teria feito mais estragos. Poderia ter sido muito pior. A equipe foi certeira e agiu com rapidez. Mais um caso coroado de sucesso em uma madrugada de plantão.

Pouco depois de nove horas da manhã, a enfermeira entrou para ver como estava o paciente do quarto 301. Simpática, checou todos os aparelhos, circundou o leito, abriu um pouco as cortinas.

“Senhor Ricardo, bom dia. Está me ouvindo? Como está? Vou refazer a medicação de acordo com a prescrição do doutor Silva. Ok? Outra coisa, sua esposa Anna tá lá fora ainda com o vestido amarelo de festa de ontem. Tá com cara de cansada e preocupada. Ela já tem permissão para vê-lo”.

Ainda ensonado, Ricardo disse com uma voz lenta que sua esposa se chamava Solange. “Há uma confusão. Não deve ser a mesma”.

“Mas, senhor esse é o nome que está tatuado na sua virilha, mesmo meio apagado, dá pra ler direitinho. Claro que é ela”.