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Alguns porquês para não escrever

Não escrevo porque é na tela branca que personagens, histórias, cavalos-marinhos, estrelas, assassinatos, beijos, florestas de pinheiros, praias sem fim, campos de girassóis são projetados. Não escrevo porque é no vazio solitário de uma viagem de trem numa manhã gelada, rumo ao norte, que os picos nevados do vale e os túneis escuros desaparecem em um piscar de olhos. Não escrevo porque o vestido de renda branca é o melhor quadro para mostrar a maquiagem borrada da noiva sozinha no altar. Sem misericórdia, sem explicação, sem amor, sem ódio. Não escrevo porque é no branco do mármore do prédio que o sangue jovem do belo entregador de pizza escorre pela madrugada adentro. Não escrevo porque as alvas rosas da coroa de flores são mais ricas em tristeza e sentimentos do que as lágrimas da viúva assassina. Não escrevo porque é na lousa branca da sala da universidade que ela escreve um curto poema que colocou um fim ao romance de dez anos que tirou a sanidade dele. Não escrevo porque meus sonhos são intensos e fugazes, se perdem antes de se transformarem em palavras, parágrafos e frases. Habitam um vazio e por lá ficam até se transformarem no dia seguinte em apenas uma lembrança tênue de que de fato sonhei.

Enfim, tela branca, deserto de temas, falta de personagens, preguiça, dispersão acontecem com muita gente. Tenho experimentado essa sensação. Eu procuro não sofrer, mas nem sempre tenho sucesso. A angústia desguarnecida de alguma motivação para escrever é realmente dolorosa. Sonhar, por outro lado, não tem me adiantado de nada. Esqueço os meus sonhos. São frágeis.

Esse curto texto acima é resultado de um exercício durante uma oficina de escrita criativa. Como escreve a autora argentina Betina González no livro “A obrigação de ser genial”: “Você resiste o máximo que pode à tentação de começar. Até que não há outra escolha. É preciso soltar a faísca, aquilo que luta na mente para ser arrancado da não palavra: a voz que de repente se forma na cabeça”. Imaginei situações e, no final das contas, acho que já tenho alguns assuntos para abordar. Ou seja, exercício é para isso mesmo. Me tira da pasmaceira e da idiotice que me acometem com a tal da tela branca.