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Sabonete Granado

O Boeing 787-9 taxiou na pista molhada, alcançou as nuvens pra atravessar o oceano que nos separa. Atrás da janela de vidro, fiquei vendo o seu rastro branco sumir no azul quase cinza da tarde chuvosa.

No carro, o banco de trás ainda guarda migalhas do lanche da viagem até o aeroporto. Em casa, o copo de plástico colorido na pia; a toalha rosa ainda úmida no banheiro; o travesseiro com o cheiro de sabonete Granado que vai sumir nos próximos dias.

O coração ficou como uma fruta mordida. Falta algo.

Abro a geladeira. Encontro um potinho de tâmaras secas e o suco de maça que ela gosta comprado ontem.  Fecho. Passo pelo quarto onde dormiu, a cama ainda desfeita, o lençol com estampa de dinossauros, o Nemo, a boneca “Menina”. O apartamento ficou grande demais, silencioso demais.

No celular, zapeio fotos de natureza.  Um campo de girassóis pendidos — a luz do dia se foi. Bem, amanhã,  eles vão se erguer de novo. Eu também. Já fiz isso antes: no portão de embarque no Rio, no aeroporto de Frankfurt, em outros aeroportos, em outras nuvens. O corpo aprende. Não apaga a saudade, mas sabe que a espera tem fim. E da próxima vez, ela vai estar um pouco mais alta.