Dia desses, fui a mais uma consulta com o ortopedista. Havia muita gente esperando. Braço engessado; pé na bota ortopédica; menino chorando porque havia quebrado o dedinho; mulher na cadeira de rodas reclamando do sinal do celular; um senhor com cabelos brancos, óculos pretos, de quase noventa anos, suponho, com bengala, acompanhado de uma cuidadora. Os dois conversavam entre si e muito alto.
“Descobri que estou velho”. Todos se voltaram na sua direção. “Quando era jovem, decidi que depois que me aposentasse, iria fazer uma viagem de três meses ao redor do mundo num navio grande com piscina, cassino, restaurante, pista de dança. Agora, é tarde. Estou velho mesmo. Esse joelho não me deixa sonhar, não me permite mais nada.”
Pensei logo: fiz merda mesmo. Tem certas coisas que não posso fazer mais. Não dá pra correr, por exemplo.
Ao final da consulta, ouvi do médico: “Condromalácia patelar, o joelho esquerdo é pior que o direito”. Desgaste dos 70 anos. “Se quer correr, emagrece e treina somente pra isso. Do contrário, arruma outra atividade física.”
É verdade que tem muita gente com mais idade correndo por aí. Sou fã. Quem me dera sentir o vento no rosto numa manhã de outono carioca correndo pela orla. Não é mais pra mim.