Quem não gosta de férias, ainda mais criança?
Eu não gostava.
Meu pai não tinha carro: dependíamos do transporte público pra tudo. Ele trabalhava e voltava no começo da noite — não dava para nos levar a lugar nenhum àquela altura. Em alguns fins de semana, ainda íamos até a casa da minha avó, à Quinta da Boa Vista ou ao Jardim Zoológico, todos em São Cristóvão. A infância se limitava ao quintal da casa de um subúrbio carioca, aos livros e às brincadeiras com poucas meninas que moravam na mesma rua. A turma da escola vivia longe. Férias não eram muito divertidas.
Como qualquer criança, eu queria passar as férias numa casa de veraneio, na praia ou na serra. Na volta às aulas, ficava ouvindo as aventuras dos amigos. Viajava nas palavras deles, tentando adivinhar como seria a tal lagoa de Saquarema ou a praia do Forte em Cabo Frio. Acho que era moda.
Eu amava quando as férias iam acabando: comprar o material escolar era pura diversão. Sacolejávamos, minha mãe, meu irmão e eu, sobre a suspensão dura de um ônibus Mercedes Benz do subúrbio até o centro do Rio em busca de preços baixos. Uma vez, ganhei uma caixa de lápis de cor com 24 cores: escondi e evitava usar muito o apontador para que os lápis não acabassem. Os cadernos eram os mais simples, mas eu os enfeitava com carimbos – presente de um aniversário. Carimbava todas as páginas e encapava para durar mais. Fazia o mesmo com os cadernos do meu irmão. Era uma farra: papel pardo, etiquetas brancas com as bordas vermelhas, cola, tudo espalhado sobre a mesa da cozinha. Depois, arrumava dentro da pasta escolar marron, que ficou comigo durante muitos anos. Nada atrapalhava a minha alegria na volta às aulas nem a novidade das pastas dos meus colegas. Nova satisfação, nova turma, uma nova vida.