Sempre pareceu a ela que aquelas cenas eram de um castelo. Um teto muito alto, colunas de madeira, quadros pelas paredes, tapete vermelho, molduras douradas, velas, um homem de vestido longo
A mãe carregava Cris para a igreja em alguns domingos. Era o dia de colocar o vestido mais bonito, os sapatos mais novos, a fita azul em volta do longo rabo de cavalo nos cabelos, os brinquinhos de pérola. Saíam cedo pra não chegar atrasadas à missa das oito. A das sete, segundo a mãe, era missa de hipócrita — gente que acordava cedo pra apenas mostrar serviço a Deus e aos vizinhos.
Nesse dia, o ambiente tinha algo de diferente. Sentada em um dos primeiros bancos, Cris observava o movimento das pessoas, principalmente, das mulheres.
— Por que tem gente que tem véu branco e outra que tem véu preto?
— Cala a boca, menina.
Grudou os olhos no alto de uma das janelas de vidro colorido. Havia um buraquinho de onde um pardal entrava e saía. Vez por outra, voava pelo altar de mármore branco coberto com um tecido roxo de franjas e pousava no crucifixo de madeira escura do fundo.
— Mamãe, ele vai fazer cocô! Tira ele de lá.
— Já disse pra calar a boca.
A igreja encheu bem menos do que aos domingos. Cris não viu o dono do bar que lhe dava balas nem os pais das duas amiguinhas de colégio. Se ajoelhava, levantava, fazia o sinal da cruz, sentava. Desviava o olhar somente pra seguir o pardal, que agora, mais atrevido, voava pela nave da igreja. Voltava para o buraquinho. Sumia. Reaparecia. Voava.
A mãe levantou, saiu do banco e a levou junto.
— Vamos aonde?
“Menina faladeira”. A senhora do banco de trás não se conteve.
Lá foram as duas para o fim de uma longa fila que se formou no tapete central. Na sua vez, o homem de vestido longo falou algumas palavras e fez uma cruz na testa de Cris. As duas voltaram para o banco. A mãe ajoelhou, ela também. De canro de olho, acompanhou o pardal, que dessa vez pousou no ombro do tal homem de vestido longo.
— Mãe, mãe. Agora ele vai fazer cocô mesmo.
Saiu correndo. Se pendurou nas vestes do padre.
— Ele vai sujar tudo, moço! Tudo!
Quando chegou ao altar, o pardal já tinha fugido pelo buraco da janela. O sacristão pulou do seu lugar, a mãe veio logo atrás. Sob o olhar do padre e de toda a igreja, agarrou a menina e caminhou a passos largos pra fora. Em silêncio.
No caminho da rampa de saída, quando passavam por um quadro de avisos, Cris viu seu reflexo no vidro da vitrine. Parou. Puxou a mãe. Olhou a cruz preta na própria testa e deu um grito.
— Eu sabia! Esse homem colou o cocô do passarinho em mim!
Passou a mão na testa e ficou com a cara toda borrada de cinzas. De longe, um dos outros padres da paróquia, a caminho do fim da cerimônia, ainda ouviu:
— Mas, mamãe, ele colou cocô em todo mundo?
O padre sorriu pra menina.
— Jesus entende e perdoa.
― Quem é esse Jesus, moço?