O Centro do Rio fervilhava. Gente fantasiada, gente bêbada sem saber se era manhã ou tarde, gente a caminho dos blocos, curiosos. Mais um dia de folia. O pai resolveu levar a filha de três anos para o meio dela. A mãe reclamou. O pai foi assim mesmo.

A menina usava uma fantasia de colombina branca com sapatilhas idem. A barra da pequena saia de tule bordada tinha bolinhas pretas e brancas e guizos dourados. Na cabeça, uma tiara com mais bolinhas. Bochechas pintadas de rosa. Corações no rosto desenhados com lápis de sobrancelha.

O pai caminhava de mão dada com a filha recebendo, aqui e acolá, elogios pela fantasia dela. Na medida em que se aproximavam da avenida Rio Branco, mais pessoas surgiam. Boom, boom, pow. Ba-dum-tss. Bumbos, metais e pandeiros ficavam cada vez mais próximos. Resolveu colocar a menina no colo. Chegou à avenida dos desfiles e conseguiu se posicionar bem para ver o bloco o Cordão do Bola Preta. A menina se sacolejava tanto que num dado momento pediu pra descer. Ele acabou aceitando, desde que ela não soltasse a sua mão. Trato feito: ela foi para o chão.

A menina se soltou. Entrou no meio dos foliões.

O pai saiu atropelando o povo; seus gritos não eram ouvidos; recebia cotoveladas dos que queriam pular com os integrantes do bloco; o coração em disparada. O chapéu de panamá sumiu. Conseguiu depois de muitos empurrões e xingamentos se enfiar no meio do bloco. De sorte, usava uma camisa de linho branco já muito suada, uma das cores do Cordão do Bola Preta. Ia e voltava entre os foliões com o rosto retorcido. Os batimentos cardíacos aumentando. “Onde ela se meteu?” “Como a deixei se perder?”

Num relance, viu a filha ao lado do cara da cuíca. Dançando. O músico percebeu logo que ele era o pai. A menina correu, abraçou suas pernas e lhe deu a mão. Saíram logo do bloco.

Os dois pegaram o ônibus de volta para o subúrbio. O pai rezava, agradecia aos céus. Sabia que levaria mais do que uma bronca da mulher. Mas a menina estava bem.

Hoje, aos setenta, prefiro ouvir de longe. Quando a bateria passa, no entanto, ainda sou aquela menina com guizos na bainha da saia de tule branco.