Preso aos desejos dos outros e do trabalho, Vagner nunca sonhou. Achava que isso era para os fortes, para aqueles que têm esperança. Ele não era assim. Levava uma vida de bosta, como costumava dizer. Morava em uma casa pequena de vila em um subúrbio da zona norte carioca há mais de 20 anos, onde ficou com a mãe depois que ela ficou viúva. Ela morreu. Ele ficou. Preguiça. O aluguel era renovado. Ele pagava. O proprietário morreu. Ele continuou no imóvel. O filho herdeiro nem pensou em procurar outro inquilino. Magro, em torno de 45 anos, Vagner era um homem cabisbaixo e lento. Variava pouco de roupa: calça cinza escuro, cinza camisa bege, marfim ou cáqui, sapatos mocassins marrons. Mais preguiça.
Gerente da loja “Beirute” na Saara – região de comércio popular do Centro do Rio que vendia roupas de cama, mesa e banho no atacado e no varejo – se orgulhava da sua primeira chance como ajudante do almoxarifado aos 18 anos. Nessa época, à noite, estudava em um curso de eletrotécnica. Seu pai achava que mais tarde seria mais fácil arrumar um outro emprego. Completou o curso, mas acabou ficando. Adorava o ambiente, aquele entra-e-sai de gente que falava sem parar. Era a sua família. Agora, 27 anos depois, o buraco de uma vida sem sonhos parecia cada vez mais fundo. Percebeu a mesmice da sua rotina. Como recusava a sonhar, ia se conformando. Aos sábados, quando voltava pra casa já no meio da tarde exausto e sem nada em mente, comprava comida no bar da esquina, tomava uma cerveja, vinha filmes de sexo. Alívio. Domingo, se dedicava à faxina, à feira, ao supermercado. Via mais filmes. Nem o futebol, o animava mais. Quando percebia, já era hora de dormir. A segunda-feira se aproximava: dia de voltar à loja “Beirute”. “Melhor assim”, pensava.
Dos seus amigos de infância, alguns morreram em confrontos policiais, outros casaram e saíram do bairro. Um deles, Miltinho, foi morar em Belém do Pará em busca do amor de um marinheiro. Por lá, ficou. “Que bom, ao menos, tem companhia”. Um deles, Júlio ainda vivia perto da vila. Achava que Vagner era exigente, impaciente demais e que havia inventado um ideal de mulher. Com o passar dos anos, as namoradas se foram; as rugas surgiram; os cabelos rareavam; a tristeza se instalou. “Sonhe, se jogue. Deixe as coisas acontecerem. Ficar sozinho não faz bem. Vai ficar doente de verdade”.
Vagner achava que era um absurdo encontrar alguém pela internet, num bar de encontros. Sair à caça de mulher desse jeito não lhe agradava. Só em sonho mesmo. Como não conseguia sonhar, não ia acontecer.
Em uma manhã de sexta-feira de chuva insistente no Rio, Jennifer vivia o dilema: o que calçar? O que vestir? Espalhou quase todos os seus pares de sapatos, sandálias, tênis, sapatilhas coloridas, rasteirinhas, mules pelo chão do quarto. Vez por outra, olhava pela janela. A chuva ia e vinha. Acabou optando por um par de sapatilhas douradas e calça jeans. Morena, 40 anos, sem filho, separada do segundo marido, se virava revendendo lingerie. Vivia em uma quitinete na Lapa, também, no Centro da cidade. Deixou para sair quase perto do meio-dia debaixo de uma guarda-chuva rosa pink na esperança de que o tempo melhorasse. Não melhorou.
Um pouco antes do horário do almoço, Vagner ouviu um barulho ensurdecedor. Correria e gritos. Olhou para frente de loja, entrava uma poeira densa que o cegou por alguns instantes. “ Gente, caiu. Que horror, meu Deus! Desabou um pedaço enorme da loja do Seu Lee. Chamem os bombeiros.
O gerente correu; gritou pedindo calma para os clientes e empregados; ordenou que todos colocassem panos de prato no rosto. Pouco a pouco, eles foram saindo pelo cantinho direito da entrada da loja se esquivando aqui e acolá das pedras espalhadas pela rua estreita. Logo depois, sirenes. Os bombeiros do Quartel Central chegavam por uma via lateral. A chuva continuou e mais forte. Pedaços de parede, tijolos quebrados, roupas empoeiradas, ferros retorcidos, cabides partidos, tudo espalhado.
— Moço, me ajuda. Minha perna tá presa. Me ajuda, pelo amor de Deus!
Era Jennifer. Tinha um corte grande na testa. Sangrava. Gritava de dor e pânico.
Vagner caminhou em direção aos escombros e começou a tirar o que estava sobre a moça. Temia que ela perdesse a perna. Pedras e tábuas caíam. Por fim, liberou a perna da moça. Quando Jennifer já estava sendo socorrida pelos bombeiros pediu para falar com o homem que havia salvado a sua vida.
— Como é o seu nome? Nem tenho palavras pra lhe agradecer, disse beijando suas mãos sujas entre muitas lágrimas escuras e sangue dos cortes do rosto.
― Vagner
Semanas depois da tragédia, Jennifer voltou ao Saara em busca do desconhecido salvador. Pergunta daqui, pergunta dali, acabou descobrindo onde ele trabalhava. Quando entrou na “Beirute” ainda caminhava com dificuldade e tinha curativos pela face. Quando a viu, Vagner achou que estava sonhando. Não conseguia esquecer aquela voz que implorava por socorro.
— Vim lhe agradecer de novo. Vamos tomar um café? Sem você não estaria hoje aqui ou poderia ter perdido uma perna.
Os dois caminharam até o misto de pastelaria, lanchonete e cafeteria da esquina da rua. Em silêncio.
— Pode comer a esfiha se quiser. A daqui é legal. Não tão boa quanto a da Padaria Basil, mas vale a pena. Estou sem fome.
— Não, não. Estou sem fome também. Só fiz esse convite, porque não sabia o que falar, como começar o papo. Na verdade, quero conhecer você. Vagner, né? Sabe, fiquei tão surpresa com sua coragem… soube que o sobrado desmoronou mais ainda. Coitado do chinês. Trabalhador, sabe?
Quase sem respirar, Jennifer começou a contar porque estava por ali naquele dia. Disse que gostava de comprar calcinhas, cintas, tops, bodies rendados. Contava tudo isso sem dar chance para Vagner abrir a boca.
— Sabe, curto deixar as minhas clientes felizes. Elas me mandam fotos, pedem dicas, reclamam que engordaram, perguntam se tem soutien pra peito caído, peito grande, pra bundão. Tudo pelo zap zap.
Vagner continuava calado.
— Ah, me conta aí. Deve ser muito legal trabalhar numa loja grande como a sua, né? Gente entrando, saindo, comprando, falando. Nossa, nem deixei você falar. Fala, aí, trabalha há muito tempo por aqui? É casado? Tem filhos? Tem namorada? Mora aonde? Tem carro? Ah, gosta de cerveja, samba, pagode?
— Nunca fui. Se você me convidar, eu vou!