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L’Oréal 7.0

Nunca imaginei que o envelhecimento, e todo o pacote que vem junto, seria um assunto interessante para a minha escrita. Cabelos brancos, por exemplo, convivem comigo desde os 28 anos. Foram surgindo como efeito de iluminação em alguns pontos da cabeça. Depois, teimaram em se concentrar nas têmporas. Enfim, se espalharam.

Minha família paterna era pródiga em ter a cabeça prateada mesmo antes de que alguém a interpretasse como velhice. Pelo contrário, todos achavam que era assim mesmo e que fazia parte da vida. Sempre louvei essa visão. Menina, lembro da insistência da minha mãe para que meu pai tingisse seus fios grisalhos. Ela, sim, tinha horror aos cabelos brancos. De tanto insistir meu pai resolveu ceder. Foi um desastre. Com total falta de prática, ele derrubou a tinta preta em cima da primeira máquina de lavar comprada depois de muita economia. Os dois não sabiam se limpavam a sujeira, se discutiam ou se deveriam se preocupar com a quantidade de minutos que a tintura já estava na cabeça dele. Não recordo como acabou. Devo ter me afastado para não trazer mais desassossego à discussão de casal. Dona de uma cabeleira de fios levemente ondulados e macios – provocava inveja às vizinhas -, minha mãe se ressentia muito quando o brilho dos cabelos brancos contrastavam com os negros. Passou a maior parte de seus anos os tingindo. Quando já estava à beira dos 90 anos e sem poder se locomover com facilidade, pedia que eu os pintasse. Como faleceu poucos dias desde que chegou ao hospital, nem deu tempo para ficar com a cabeça toda branquinha. Foi-se com a metade da cabeça branca e a outra dourada, o tom que ela escolheu para driblar os fios que tanto a desagradavam.

Com essa onda super bem-vinda de assumir os fios brancos, ando refletindo sobre meus pais. Minha mãe resistiu até onde pode. Meu pai, claro, encheu o saco e desistiu do perrengue. Ele tinha uma relação mais tranquila com o tempo. Morreu aos 94 anos ainda grisalho.

Desde que fui declarada idosa – me dei conta na pandemia – venho pensando mais no tema. Admiro essa transformação no visual, aprovo, mas não me enxergo nela. Como há anos uso um corte curtíssimo, me viro como posso. Não sofro pressão nem cobrança. Decidi levar até quando a impaciência me faça abandonar a tintura. Sei que esse dia vai chegar. Estarei pronta e viverei com alegria essa nova temporada. Melhor estar com cabelos brancos, envelhecendo e viva. A outra opção não é boa. Pelo contrário, é péssima.

Crônica publicada na coletânea “Nós 3, textos de autoria feminina do selo OffFlip