A fé é algo que não dá pra explicar. É difícil até entender como se processa na cabeça de cada pessoa. A gente, às vezes, não sabe nem mesmo se é fé ou obsessão. Não podia deixar o outubro passar sem contar essa história: dia primeiro desse mês foi a data dedicada a Santa Terezinha, uma das santas razão desse texto. Você já vai saber o motivo.
Lá pelo início dos anos 1960, Doralice começou a chamar a atenção da vizinhança de um subúrbio do Rio às margens da estrada de ferro Rio Douro – hoje, esse caminho é ocupado pela linha 2 do metrô. Magra, deveria ter algo em torno de 65 anos, mantinha os cabelos presos em duas tranças que se juntavam no alto da cabeça. Morava numa casa de fundos de quarto e sala. Na frente, viviam seu irmão e esposa cujos filhos já haviam saído de casa e pouco os visitavam.
Solteirona, fazia questão de falar sobre sua vida amorosa, as muitas propostas de casamento e de noivado. Os vizinhos achavam que tudo era pura invenção. Apenas, motivo pra puxar papo. Alguns ouviam. Acho que por pena. Os casos eram tão sem pé nem cabeça que não dava mesmo pra acreditar. Resignada, Doralice aceitava a vida sem marido como coisa do destino e fazia dessas histórias o motor da sua rotina diária.
Um das mais repetidas era sobre o namoro com um padre que ela havia conhecido enquanto subia os 382 degraus da igreja da Penha. Fazia o sinal da cruz e jurava que não sabia que ele era padre. Em pouco tempo, os dois passaram a se encontrar com frequência na casa de uma amiga. Mesmo depois que ela soube que o homem era padre, o romance continuou, proibido e escondido. Tudo ia bem até que em uma manhã ela acordou desesperada. Chorou, rezou, fez promessa para Nossa Senhora da Penha que subiria de joelhos a íngreme escadaria. Como necessitava de muita ajuda, pediu a colaboração de Santa Teresinha. Achava que estava grávida.
Cumpriu com o prometido quando teve a certeza de que não estava gerando um filho do pecado. No caso da segunda santa, prometeu que o resto da vida manteria roseiras amarelas ao seu redor. “Farei cair uma chuva de rosas sobre o mundo para todos aqueles que peçam a minha intercessão. As duas santas juntas me livraram do pecado. Graças a Deus”. O padre sumiu. Foi transferido nem carta mandou.
Doralice precisou mudar de bairro e foi parar na tal casinha de fundos. No jardim e no canteiro central da calçada, plantou várias mudas de rosas amarelas. Quando as roseiras permitiam, doava mudas para os vizinhos. Ninguém negava a oferta. Havia dias em que entregava uma única rosa recém-colhida, que, às vezes, chegava ainda com o orvalho da noite anterior. A única questão era que a cada visita havia uma história mais louca sobre namorados, amores proibidos, sonhos interrompidos, beijos escondidos, noites de muito calor. A conversa sempre terminava com o conto sobre o padre e a gravidez que não chegou a vingar. “Graças à Nossa Senhora da Penha e à Santa Teresinha”. Amém.
Todo 1º de outubro, ela montava um altar na varanda com a imagem de Santa Teresinha sobre uma toalha branca com borda de crochê. Quem passasse pelo portão era convidado a entrar. Muitos atravessam a rua: não queriam participar do que consideravam palhaçada. Outros entravam, oravam uma Ave Maria, ganhavam uma rosa amarela e um pedaço de bolo. Partiam com a sensação de dever cumprido pelo bem-estar da vizinhança.
Doralice continuou no mesmo lugar por muitos anos com as mesmas histórias, cuidando das roseiras, cada vez mais seca com os ombros caídos e amassados pelo tempo. Certo dia, correu pela vizinhança a informação de que ela havia sido internada com crise de asma. Ninguém mais soube dela ou quando faleceu. As roseiras amarelas permaneceram do mesmo jeito. Nem os outros inquilinos nem o novo proprietário das casas tiveram coragem de arrancar um só pé de rosas. Podia ser que a proteção de Santa Teresinha ainda estivesse por lá. A fé sem fim de Doralice a protegeu da vida e da velhice solitárias. Quem sabe essa proteção havia impregnado paredes, janelas e pisos da casa. Nunca se sabe. Melhor deixar tudo da maneira como ela planejou.