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Morte sobre o mar Mediterrâneo

Já passava um pouco de duas da tarde, quando Omar, um argelino-francês de 45 anos, chegou mais uma vez ao cassino de Monte Carlo. As portas haviam sido abertas há pouco. Lá fora, sol brilhando.

Vestindo um terno de linho marfim Prada, decidiu que sua sorte estava na mesa de “Black Jack”. Na noite anterior, havia sonhado com relógios Bulgari, gravatas Hermés, o perfume “Poivre Sacré” de Caron, segundo ele, o aroma do poder. Confiante, sabia que depois de tantos anos, enfim, chegara a sua vez. A vitória sobre a mesa seria seu passaporte para a riqueza.

Foi por causa da palavra riqueza que procurou Samir ainda na juventude. Uma vez,  o viu desfilar em uma Ferrari pelas ruas poeirentas de sua vila. Fez de tudo para se aproximar do homem elegante e misterioso. Ninguém sabia de onde vinha, o que fazia e por que estava por aquelas bandas. Se ofereceu como ajudante, informante, o que fosse necessário. Omar foi em silêncio fazendo parte da vida desse sujeito sem se dar conta de que a admiração poderia se transformar em fascínio cego, amor doentio. Cumpriu ordens que fugiam de seu entendimento, mas lhe davam prestígio e poder. Seguia seus instintos dentro do acordo que fazia sentido somente para ele e Samir. Aceitava qualquer regra de olhos fechados para se manter na organização.

Samir era um uma figura que, ao mesmo tempo, causava atração e repulsa. De voz rouca, com um sotaque diferente, sumia e aparecia sem deixar rastros. O povo dizia que a fortuna vinha dos negócios com o petróleo ou, quem sabe, de armas. Especulação, dizia o discípulo.

A aposta mínima no cassino era de 25 euros. Omar apostou 2.500 euros. A recepcionista chegou a balbuciar um exclamativo “monsieur” como se quisesse confirmar a quantia. Não era de seu costume apostar tão alto. Diante da confirmação do jogador, passou as fichas para as suas mãos.

Dez horas mais tarde, cansado, bêbado e sem forças nem para pensar em mais nenhuma rodada, ouviu o que sempre almejou: a banca se deu por vencida. Omar caiu em prantos sobre o tapete. Os que estavam ao redor batiam palmas, brindavam, gritavam seu nome.

Refeito da emoção, foi até o caixa, pegou a metade do prêmio de 1 milhão de euros e tomou o rumo de casa no vilarejo de Èze nos arredores de Nice. Em outros tempos, embarcaria em um ônibus. Agora, ao volante de um táxi, um velho motorista o conduzia. Omar não se deu nem ao trabalho de responder o cumprimento de boa noite. Caiu no sono.

Um pouco mais de 20 minutos depois, o Renault parou perto de uma das muitas escadas do povoado. Foi sacudido pelo motorista, mal conseguia ficar de pé.  O taxista apressado e impaciente tirou o envelope do bolso do bêbado, mandou que saísse do carro rapidamente, deu ré e sumiu na estreita rua de pedras.

Cambaleando degrau a degrau, Omar tentava acertar a direção do estúdio alugado bem lá no alto do penhasco. Ao longe, os sinos da igreja de Nossa Senhora da Assunção avisavam que já era meia-noite.

Cochilo aqui, cochilo ali, já com o dia se preparando quase para nascer, conseguiu chegar em casa. Avistou um homem alto, magro em um bem cortado terno cinza, encostado na porta de entrada. O cheiro era de “Poivre Sacré”.  Se perguntava quem seria aquela pessoa em frente à sua porta no meio da madrugada. Esfregou os olhos e não reconheceu seu senhor, Samir. Não teve tempo de pronunciar nem uma palavra. A voz era inconfundível.

“Isso lá são horas, Omar? O que foi que combinamos? Lembra? 50% do um milhão antes das doze badaladas da meia-noite nas minhas mãos. Estive no cassino agindo para cumprir com o nosso acordo. Há anos, você sabe como deve agir em casos como esse quando a confiança e a promessa são quebradas. Você me deve. Faça o que tem que fazer. Au revoir.”

Omar mexeu nos bolsos. Nada dos quinhentos mil euros. Seu coração disparou. Queria se explicar, fazer outro pacto, até se arrepender. Olhou para trás e não viu ninguém. Samir havia desaparecido antes que ele pudesse imaginar como as coisas haviam dado errado. Desesperado, arrancou o paletó; se atrapalhou para pegar as chaves; xingou o motorista; deu soco na parede por ter se permitido embriagar pela champanhe, pela vitória.

Já dentro de casa, se deixou cair no sofá marrom repleto de roupas amassadas e de almofadas. Torturado pelas ideias, passou uns instantes refletindo sobre as escolhas, os amigos, os erros e os compromissos que tomou ao longo de sua existência. Vinte anos de uma devoção mortal de obediência e fé. Em troca de quê? Nunca havia se perguntado de onde vinha o poder sobrenatural de Samir e a fascinação que ele provocava.

Tirou do dedo mínimo direito o anel em ouro com a insígnia da irmandade, o colocou em uma caixinha de madeira com forro vermelho e a devolveu à estante. A angústia subia e descia pelo seu peito. Teve vontade de vomitar, de chorar, de gritar por alguma ajuda. As têmporas doíam como se tivessem sido massacradas.

Minutos depois, acabou achando melhor acelerar o processo conhecido de todos que seguiam cegamente o chefe em troca de algum pedido pessoal

Seu coração começou a bater mais devagar. O mundo foi ficando mais silencioso.

Se aproximou da janela, subiu no parapeito. Não pensou em mais nada, nem no Mediterrâneo, nem nas ondas que batiam nas pedras lá embaixo, nem no sol que surgia no horizonte. Tudo era escuridão.