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Restos de um carnaval

Chovia fraco. Resto do que sobrou do temporal do fim daquela tarde. O relógio rondava a madrugada.

Jeff atravessou a passarela sobre a linha de trem em um subúrbio da zona norte carioca. Só pensava em sua cama, no afago de boas-vindas de Julius, seu gato amarelo com olhos verdes. E mais nada.

Naquela quinta-feira, ele havia passado horas organizando prateleiras de plumas coloridas, de arcos de cabeça com orelhinhas de vaca ou com chifres de diabo, shortinhos com lantejoulas, maiôs com muito brilho. A loja onde trabalha fervilha nessa época de Carnaval.

No meio da manhã, viu um solitário saco preto no fundo do estoque. Dentro dele, uma fantasia de “bate-bola” em cetim vermelho e amarelo com listras e bolotas verdes e uma gola farta em tule roxo e rosa. Achou estranho porque esse tipo de vestimenta sempre sai de um centro de costura do grupo de “bate-bolas”. Não entendeu por que estava ali. Deixou pra lá.

Esse tipo de fantasia na sua infância o aterrorizava. Seu bairro era repleto de grupos de “bate-bolas” . Saíam agitando a vizinhança. Criança, Jeff se refugiava atrás da saia da avó. Certa vez, graças a ela, escapou aos prantos de ser atingido pelos golpes interpretados como agressivos de um deles. Dona Nilza partiu para cima do mascarado com uma vassoura. Bateu tanto na cabeça dele que deixou uma mancha de sangue na máscara. Ele não lembra de ter ouvido um único som de dor. Nunca se soube o que aconteceu com o sujeito. Saiu cambaleando. Desapareceu.

No caminho pra casa, quando atingiu um beco com alguns latões de lixo, ouviu um ruído. Logo depois, uma voz fraca.
— Por favor, me ajude. Estou preso nesse canto. Não quero mais ficar aqui. Quero ir embora.
Debaixo de um cobertor cinza em trapos, Jeff pode enxergar pés muito sujos. Parecia ser de um homem em situação de rua.

Mais perto, constatou que o rosto estava desfigurado. Não dava para saber se era preto ou branco. Ficou chocado com a aparência e com o odor da figura.

Preciso chamar a Polícia e o Corpo de Bombeiros. Deve haver algum carro na ronda do bairro. O senhor está muito ferido. Não sei nem como fazer para lhe tirar daí. Pode deixar que vou lhe ajudar. Não vou deixar que fique mais tempo sozinho. Precisa de socorro o mais rápido possível. Já volto.

— Obrigado. Sempre aguardei por essa ajuda.

Acabou achando uma viatura da PM na rua seguinte. Voltou junto com os policiais. Quando chegaram ao tal beco, levou uma bronca. Não havia ninguém no local. Foi chamado de inconsequente, moleque. E, por aí vai.

Sentou no meio-fio molhado num misto de impotência, tristeza e desânimo. O homem não teria forças para se locomover sem ajuda. Ficou sem entender o que poderia ter acontecido e com o coração apertado por não ter ajudado.

Resignado, tomou o rumo de casa. Lá chegando, viu um capuz de “bate-bola” preto úmido de chuva e com uma nódoa enorme de sangue seco. Sem entender nada, olhou para trás. Ao longe, um homem nu, careca, muito magro, se afastava a passos lentos até sumir na madrugada.

A máscara era igual à do “bate-bola” que levou as vassouradas da avó anos atrás. A cena foi marcante e recheada de muito medo. Ele guardou bem a imagem. Havia um desenho de uma espada medieval preta debaixo de cada olho. A que estava nas suas mãos também tinha.

Foto: O Globo